O que leva alguém que se diz chocado com um vídeo chocante a partilhar o choque?
À partida terá chamado a si um direito de justiça e um dever de cidadania. Algo entre a coragem e um irrefletido ato de valentia.
O vídeo da semana é de uma crueldade sem fim. Todos aqueles minutos de horrores quebrados por gritos lancinantes e sinais evidentes de desespero e sofrimento correspondem a uma explosão de raiva sem perdão.
Terá sido essa a ideia de tão boa gente que decidiu mostrar ao mundo o que acabara de ver. A ideia-base, acreditando na boa formação de cada um e na melhor intenção, seria a de mostrar o agressor. Expô-lo à força toda. Mostrar-lhe a cara de frente. Estão a ver? Este é o agressor!
Conseguiram esse efeito.
Mas, na ânsia da condenação e exposição do agressor, tantos cidadãos fixaram-se no acessório e esqueceram o essencial.
E o essencial não é o agressor, que fora identificado logo a seguir pela Polícia e o processo já tinha seguido para o Ministério Público.
O essencial é aquela criança e aquela mulher. E o que mete medo ao susto é ver gente de bem a cegar também e a publicar tudo junto, sem o menor cuidado com o filho e a mãe.
Para os que se sentem mais tranquilos com a prisão preventiva, saibam que isto ainda não acabou. Pelo contrário: só acabou de começar.
Para o agressor, a cadeia é consequência natural do crime. Para as vítimas, a libertação tem um sentido diferente e rima com exposição.
Numa terra pequena, mãe e filho não terão paz tão cedo.
Mas este caso tem outro lado, o que fez da denúncia pública uma arma que gerou alarme social, que fez tocar campainhas em todo o País e que terá contribuído para um desfecho mais consentâneo com a violência do crime com direito a castigo imediato. Pena que, pelo meio, tenham sido novamente castigadas as vítimas.
Esta violência, assim exposta a sangue-frio, fez saltar a ira coletiva tantas vezes adormecida. Fez acordar o espírito de cidadania que anda moribundo por estas terras. Esse sentido de comunidade, de equilíbrio e justiça vive quase sempre cego, mudo e mouco.
E andamos entre extremos. Ou são posições assumidas aos gritos ou fingimos que não aconteceu nada.
No primeiro caso, essa gritaria é essencialmente virtual. Acontece no conforto do lar, atrás de perfis anónimos que moram no computador. No segundo, acontece todos os dias quando a sociedade passa ao lado de tantas manifestações de injustiça.
O justo levantamento popular a que se assistiu a esta semana só encontra paralelo com o posicionamento público que aconteceu há cerca de um ano.
Lembram-se do lince Bores, que foi apreendido e acabou por morrer? Também nessa altura se assistiu a uma gigantesca onda de indignação geral. Também nessa altura correram milhares de partilhas de fotografias e vídeos do animal selvagem domesticado.
Houve mesmo uma petição que recolheu mais de 20 mil assinaturas em defesa do Bores.
Neste caso, não se conhecem petições, nem assinaturas, nem visitas, nem manifestações de outra natureza. Neste caso de violência doméstica de extrema gravidade, a sociedade respondeu com profunda ira e consternação. Mas fê-lo atrás de um dispositivo onde bastava escrever umas linhas de denúncia e partilhar o vídeo. O tal vídeo que tanto mostrava a cara do agressor, como o horror estampado no rosto das vítimas.