No podcast “Geração de 60” Miguel Monjardino relembrou a importância das ciências sociais – a filosofia, a história, a sociologia, a ciência política, a economia, a geografia e outras – muitas vezes referidas como “inúteis”. Realçou ainda a necessidade de reler os clássicos – Platão, Aristóteles, Rousseau e Locke, entre outros – que moldaram ideias sobre governo, cidadania e contrato social, conceitos fundamentais para a organização dos Estados modernos. E que nos recordam que a condição humana e a vida em comunidade política continua tão atual como à data em que foram escritos.
O desenvolvimento dos Estados modernos não pode prescindir da compreensão profunda das relações sociais, da história, da geografia e dos valores que estruturam a vida coletiva. A sociedade não pode existir sem memória coletiva e é justamente essa memória que mantém coesa a identidade de um povo, como o considera Durkheim em As Regras do Método Sociológico (1895).
As “inutilidades” formam o quadro conceptual de ferramentas que permitem a compreensão do funcionamento e fortalecimento das sociedades, pois promovem a participação e debate público, a reflexão crítica, e o pensamento político. Assim se constroem memórias que contribuem, conhecendo o passado e aprendendo com os seus erros, para escolhas informadas dos futuros possíveis. Ainda que tenhamos de ter em conta que o passado nunca está, simplesmente, “lá atrás”, pois é continuamente reinterpretado, apropriado e disputado para validar projetos de futuro.
Em tempos de incerteza política, crescente desigualdade económica, desconfiança nas instituições, enfraquecimento dos partidos tradicionais, imediatismo dos média digitais e das redes sociais, a extrema-direita tem vindo a aumentar a sua influência e representatividade política. Progressivamente desafiando os valores democráticos e o pluralismo político através de um discurso antissistema de retórica populista e uma narrativa de “nós contra eles”, de demonização dos outros partidos, bem como no ataque a instituições como a Justiça, a Imprensa e a Universidade. Procurando que um património coletivo e plural se torne numa narrativa rígida, mitificada e excludente, minando tanto a democracia quanto a própria riqueza cultural da sociedade.
Dois exemplos desta prática da extrema-direita. A reação do líder do Chega, na sua conta do X, à declaração de inconstitucionalidade da proposta de Lei dos Estrangeiros em que afirma “A decisão de inconstitucionalidade sobre a lei dos estrangeiros não é compreensível. (…) É um espírito de esquerda que se apoderou das instituições e contraria aquilo em que os portugueses votaram no dia 18 de maio”. Um segundo exemplo, a vontade de rever o Preâmbulo da Constituição para apagar as expressões “regime fascista” e “abrir caminho para uma sociedade socialista”.
O desafio do século XXI é fortalecer o diálogo entre academia, governo e sociedade, promovendo uma gestão pública informada, democrática e sensível às lições do passado. Estudar ciências sociais é investir no futuro da Democracia. É dotarmo-nos de ferramentas para compreender e agir, é garantir que as leis não sejam apenas regras, mas reflexos de ideais compartilhados. A manutenção da democracia não está apenas no campo de batalha da ideologia, mas também no campo do conhecimento.
Afinal para que servem as Ciências Sociais? Miguel Monjardino, no podcast “Geração de 60”, dá-nos a resposta “Serve para imenso. Aliás, tirando a China, a maior parte das pessoas que dirige os países estudaram coisas inúteis.” Queremos seguir o exemplo da China? Citando Álvaro Cunhal “Olhe que não! Olhe que não!”.