Silly Season

I. A seriedade dos “silly”

Infelizmente, a crónica estival não pode furtar-se à gravidade do infortúnio recente em Machico, cujas imagens de violência doméstica trouxeram à crueza pública aquilo que, na penumbra dos lares, é mais frequente do que se imagina: a agressão, a humilhação, o trauma – esse eco invisível que se prolonga até às crianças. A diferença aqui não foi o ato, que a comunidade próxima já intuía, e até, dizem, alguns teriam ouvido do próprio agressor como motivo de vã jactância: “homem suficiente” para “corrigir” esposa e amante. A diferença foi a existência de uma câmara, um olho frio e objetivo que arrancou do privado para o domínio coletivo o que muitos sabiam, mas fingiam não ver.

É esse o nosso paradoxo social: relativizamos falcatruas e violências quando permanecem rumor de bastidores, até gracejamos sobre elas em mesas de café; mas no instante em que se tornam imagem ou investigação judicial, erguemo-nos como severos guardiões da moral. É a nossa estrada de Damasco coletiva, onde cada um de nós encena um São Paulo subitamente iluminado.

Ora, neste ponto, a discussão não pode quedar-se no anedotário social. O ordenamento jurídico português ainda se arrasta em formalismos dignos de outro século. Que uma confissão inicial nada valha se retractada em julgamento, que imagens públicas de uma agressão sejam normalmente rejeitadas em primeira instância, mantendo-se no escopo da subjetividade e discricionariedade do juiz, é um nonsense jurídico. É quase exigir ao magistrado que simule ignorância perante aquilo que todo o país já viu. Mas infelizmente é ainda a verdade. Justiça sem bom senso é caricatura. Mas tentar trucidar quem alerta para o problema, como se o mensageiro tivesse culpa da iniquidade da lei, é ainda mais Silly. Essa coisa tão portuguesa de ser mais fácil matar o mensageiro …

E já que falo em bom senso: este não se confunde com o ímpeto da turba. O ataque à barbearia do agressor – ato de vandalismo perpetrado, ironicamente, talvez pelos mesmos que até há pouco se riam com os relatos das “chapadas” – mostra que a hipocrisia é vizinha da violência. O combate à violência doméstica não se resolve com mais violência, mas com leis eficazes, provas sólidas e uma sociedade que não tolere, nem banalize.

II. Os sillys que são imbecis

Há cerca de doze anos que assino opinião em publicações regionais e nacionais. Nunca almejei consensos, nem sigo a cartilha cómoda do comentário domesticado. A minha escrita, assumidamente, já gerou desconforto: tanto junto de adversários como no seio do próprio projeto político que continuo a defender como o mais ajustado à Madeira e aos madeirenses.

Por isso não aceito – nem admito – a insolência dos idiotas funcionais, essa fauna sem rosto, sem relevância política, sem currículo cívico, que tenta dar prova de vida atribuindo-me ataques anónimos que nunca pratiquei. Se não fosse canalhice, seria apenas silly. E para tais desvarios, haverá sempre a instância própria dos tribunais, quando for necessário separar opinião legítima de calúnia cobarde.

O mês de agosto, essa chamada “silly season”, costuma ser indulgente para frivolidades. Mas há limites. Uns, porque a violência doméstica não pode ser relativizada. Outros, porque a calúnia anónima não pode ser confundida com opinião. Que cada qual assuma o que diz e o que faz. Eu sempre o fiz.

Bom agosto!

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