O amor não se mexe enquanto espera

Vou escrever uma história maravilhosa sobre esta fotografia, dizia o jovem Artur, sempre num tom embriagado e cheio de esperança. Parece que ainda o oiço. Podem ter a certeza, vou escrever uma história maravilhosa sobre esta fotografia, dizia ele.

Era um belo rapaz. Alto, peito proeminente, cabelo negro e encaracolado, perfil helénico. Parecia um guerreiro desenhado a negro numa taça grega. Queria ser escritor e tinha uma paixão desnorteada pela fotografia que decorava a parede do bar atrás do balcão. Era uma fotografia a preto e branco enorme, ou melhor, era a reprodução ampliada de uma fotografia a preto e branco captada no centro da cidade, algures no início do século XX.

– Não se sabe nada sobre esta fotografia – dizia ele, todo entusiasmado. – Não se sabe quem foi o fotógrafo, nem quando foi tirada, nem quem são estes gajos, nem sequer se percebe onde estão. Vou escrever uma história maravilhosa sobre esta fotografia – dizia ele. – Hão de ver.

Nós, porém, sabíamos que ele jamais seria capaz de escrever o que quer que fosse. O álcool algemava-o, enchia-o de miséria. Além disso, só lhe aconteciam contratempos, chatices e desgraças. Nunca tinha dinheiro e andava sempre a pedir emprestado e depois não pagava e volta e meia aparecia com mazelas e nódoas negras, porque alguém o tinha atacado sem mais nem menos, dizia ele, como se acreditasse no que dizia, ou como se estivesse convencido de que os outros acreditavam no que dizia.

– És um bandido – respondíamos, metade a brincar, metade a sério. – És um bandido, Artur.

Uma vez, Artur apareceu com um carro roubado, mas passados dois dias sofreu um acidente. O carro ficou completamente destruído e ele foi parar ao hospital, onde, por engano, lhe retiraram o apêndice, que estava em perfeito estado. Noutra ocasião, engatou uma mulher cega já com mais de cinquenta anos, mas que julgava ser ainda jovem e bela e ele fazia-a acreditar nisso. Levou-a para uma pensão rasca na zona velha, dizendo ser um palácio abandonado. Despiram-se e nisto deflagra um incêndio no prédio. Veio a polícia e acusaram-no de ter posto fogo para não pagar a conta. Esteve preso o tempo suficiente para fazer novas amizades, daquelas que são perfeitamente dispensáveis, embora seja sempre útil conhecer um ou outro bandido, pois às vezes dá imenso jeito.

No dia em que foi despedido do seu último emprego aqui, na ilha, Artur andara toda a noite nos copos com um colega e depois decidiu dormir no escritório da empresa, de modo que tirou os sapatos e estendeu-se ao comprido em cima da secretária e cobriu-se com folhas de jornal. O colega, mais acanhado, optou por se sentar numa cadeira e estender as pernas sobre a mesa. Adormeceram neste estado, mas o colega acordou meia hora depois, com os vapores etílicos à flor da pele e a alma suplicando por ar fresco. Tentou acordar Artur, mas ele dormia como uma pedra e ressonava tranquilamente. Eram cinco e meia da manhã e o colega decidiu dar um passeio para recuperar a lucidez. Pelo caminho, entrou numa tasca e tomou um café e depois deitou-se num banco no Jardim Municipal, debaixo duma sumaúma, e dormiu até às oito horas, quando os ruídos da cidade tornaram impossíveis os seus sonhos de bêbado.

Ao acordar, lembrou-se logo de Artur. Pelo contrário, quando Artur acordou não se lembrou de ninguém, pois estava diante do diretor da empresa, um tipo enorme e cinzento, que era também, ou acima de tudo, coronel do exército aposentado.

Artur foi despedido naquela hora, como nos filmes americanos, e saiu com as suas coisinhas num saco de plástico preto amarrotado e caminhou à toa durante uma ou duas horas, até que entrou num bar-restaurante onde nunca antes tinha estado, chamado A Revolta de 1921. Era atarracado, sombrio e antigo e ficava numa rua feia dentro da cidade, sem vista para nada, mas ele passou a ir lá todos os dias desde então e todos os dias falava da fotografia na parede atrás do balcão, considerando-a intrigante e misteriosa.

Entretanto emigrou, mas sempre que vem cá de férias mete-se ali durante horas e horas. A última vez foi há cinco anos, antes da pandemia. Encontrei-o nessa altura e perguntei-lhe porquê, ao que ele respondeu de rompante, sem pensar:

– Porque vou escrever uma história maravilhosa sobre esta fotografia.

E ficámos os dois a olhar para a parede atrás do balcão…

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