As marcas invisíveis da violência doméstica

Quando se fala em violência doméstica, a tendência social ainda é olhar para o imediato: a agressão em si, a vítima direta, a denúncia ou a ausência dela. No entanto, a questão é muito mais profunda. A violência doméstica não é apenas um ato isolado de agressão física, psicológica ou emocional — é uma ferida que se infiltra em todos os cantos da vida de quem a sofre e em todos os que a testemunham. É um crime silencioso que deixa marcas invisíveis, não só na vítima, mas também nos filhos, nos familiares e até na comunidade.

O agressor, muitas vezes, recorre a justificações: o stress, o álcool, a pressão económica, o ciúme, a ideia distorcida de posse. Nenhuma justificação, contudo, pode servir de desculpa para o exercício da violência. É necessário afirmar com clareza ética: a agressão nunca é um “ato de fraqueza” — é sempre uma escolha. Uma escolha consciente de subjugar o outro, de retirar-lhe a dignidade, de transformar o lar, que deveria ser o espaço de maior segurança, no lugar mais perigoso.

As consequências não terminam no momento do ato. Uma vítima carrega o peso da humilhação, da dor e do medo durante anos, muitas vezes durante toda a vida. Mas talvez ainda mais devastador seja o impacto nos filhos que crescem a assistir à violência dentro de casa. Uma criança que vê a mãe agredida aprende que o amor se confunde com dor, que o silêncio é uma forma de sobrevivência e que o medo é normal dentro de quatro paredes. O ciclo repete-se, perpetua-se, porque o agressor não agride apenas uma pessoa — destrói a noção de família, deturpa a forma como as gerações futuras percebem as relações humanas.

Aqui reside a gravidade maior da violência doméstica: o seu poder de se prolongar muito além da vítima. Um filho que cresce num lar violento carrega marcas emocionais invisíveis — ansiedade, depressão, dificuldades em confiar, ou até a tendência de reproduzir os mesmos padrões. Assim, o agressor não apenas fere quem tem diante de si, mas compromete o futuro de quem está a crescer e de quem deveria aprender, justamente em casa, o valor do respeito, da empatia e da solidariedade.

É urgente dizer, de forma clara e sem subterfúgios: não basta condenar a violência, é preciso responsabilizar o agressor. É preciso que cada homem ou mulher que levante a mão, a voz ou a humilhação contra o seu companheiro ou companheira compreenda que não se trata de uma falha passageira. Trata-se de um atentado ético contra a dignidade humana, um crime que não pode ser relativizado, desculpado ou silenciado.

No entanto, a crítica justa não pode servir apenas para punir — deve também apontar caminhos. O agressor precisa de ser confrontado com as consequências dos seus atos, mas também precisa de ser chamado à mudança. A sociedade deve oferecer respostas de justiça, sim, mas também de reeducação. Porque quebrar o ciclo da violência exige mais do que punir — exige prevenir, educar, reconstruir.

A reflexão que este problema nos impõe é simples, mas dolorosa: até quando aceitaremos que tantas vidas sejam destruídas pelo silêncio cúmplice, pelo medo de falar, pela normalização da agressão? Até quando permitiremos que crianças cresçam a acreditar que é aceitável amar e ter medo da mesma pessoa?

A violência doméstica não é um problema privado. É um problema social, ético e humano. E cada agressor deve ser visto e responsabilizado como aquilo que é: alguém que destrói não só uma vida, mas todo um futuro. É tempo de quebrar o ciclo. É tempo de proteger as vítimas e, sobretudo, de ensinar às novas gerações que amor nunca se confunde com violência.

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