Mulheres e homens unidos contra a violência sexual e a banalização da partilha de imagens “criminosas” nas redes sociais estiveram, esta tarde, em manifestação em frente ao parlamento madeirense, à mesma hora que se iniciava em Lisboa, a manifestação convocada por um movimento apartidário em resposta ao caso de uma alegada violação de uma jovem de 16 anos, ocorrida em Loures, por três homens, conhecidos na internet como ‘influencers’ ou ‘youtubers’.
O Funchal foi a única cidade do país, para além de Lisboa, que decidiu também protestar contra a violência sexual contra as mulheres. A iniciativa partiu de Ana Moniz, uma jovem cidadã, que explicou que o movimento hoje concentrado em frente à Assembleia, que reuniu mais de 50 pessoas, surgiu devido ao caso da jovem de Loures alegadamente vítima de violação sexual por três jovens que gravaram o crime e partilharam nas redes sociais. “Estamos aqui em solidariedade não só por essa jovem, mas por todas as mulheres que são vítimas de violência sexual e machista”.
A organizadora referiu que foi através da internet que tomou conhecimento da realização de uma manifestação em Lisboa e decidiu juntar pessoas para se manifestarem no Funchal, com a Madeira a ser a única região do país a se juntar a este movimento apartidário”. A responsável fez questão de vincar esta característica porque, apesar de estarem presentes na manifestação no Funchal pessoas ligadas a partidos políticos.
Ana Moniz defende justiça. “Os agressores não podem sair impunes destes casos”, vincou, lamentando que os jovens que terão violado a rapariga em Loures saíram em liberdade. “Estamos a silenciar as vítimas e a libertar os agressores”. Tem de haver medidas para punir os violadores, considerou, e, apesar de ver as redes sociais como uma forma de liberdade de expressão, “tem de haver civismo para o que certo e o que está errado”.
Bernardo Margarido é um dos jovens que disse ‘presente’ à chamada para participar na manifestação. “Eu estou aqui porque o que aconteceu em Loures nunca devia ter acontecido. Nós, enquanto sociedade, temos de melhorar e perceber que o crime da violação é hediondo e deve ser condenado de todas as formas”.
A seu ver, quando uma violação passa impune, “não estamos só a ostracizar uma vítima, estamos a dar azo a que aconteça mais vezes e que haja mais vítimas. Não pode ser visto como uma situação normal. É um crime contra a humanidade, contra as mulheres. Sinto-me indignado”, sublinhou o jovem, em declarações aos jornalistas.
Por seu turno, Carolina Martins quis fazer parte da manifestação para protestar “contra a banalização dos atos de violência, seja sexual, psicológica ou física”. A manifestante mostrou-se revoltada com o facto de haver pessoas “interessadas em ganhar dinheiro, influencers, com visualizações de um ato em que uma pessoa está a ser violada”. Esta situação, acrescenta, mostra “que estamos a falhar como sociedade e algo tem de ser feito para contrariar essa tendência”.
Admitindo que há também violência contra os homens, Carolina disse ter ficado chocada por não ter havido nenhuma denúncia entre as 32 mil visualizações que o vídeo em questão teve. Referindo que houve comentários de outras jovens de que a vítima só denunciou porque “queria mais”, Carolina questiona-se “até que ponto os influencers têm, de facto, influência na vida dos nossos jovens?”, aconselhando os progenitores a verem a série britânica ‘Adolescência’, focada num adolescente que terá assassinado uma colega de turma devido a comentários online. “Temos de ter consciência que estamos num mundo cada vez mais digital, e não é por termos os filhos em casa que eles estão seguros”, mas nas redes sociais. “Temos de assumir mais o nosso poder parental”, concluiu.
Recorde-se que a manifestação em Lisboa e no Funchal surgiu após a indignação gerada pelo caso da violação da jovem, que foi filmada pelos três suspeitos, todos com idades compreendidas entre os 17 e os 19 anos. Os suspeitos são conhecidos na internet como youtubers, com uma grande base de seguidores, incluindo a vítima. Após o crime, os jovens partilharam o vídeo nas redes sociais, onde foi amplamente visualizado, sem que ninguém tenha denunciado a agressão. O vídeo tornou-se viral, perpetuando o sofrimento da vítima, e a indignação social tem aumentado à medida que a situação foi ganhando visibilidade.
De acordo com a investigação da Polícia Judiciária, os três suspeitos terão encontrado a jovem na zona de Loures e, após um encontro, cometido o abuso sexual. A jovem, após o ocorrido, denunciou o caso à sua mãe, que, por sua vez, alertou as autoridades. A vítima foi encaminhada para o Hospital Beatriz Ângelo, onde o caso foi oficialmente reportado à polícia.
Apesar da gravidade da acusação, os três suspeitos foram ouvidos em tribunal, mas não ficaram detidos. As medidas de coação aplicadas pelo Juízo de Instrução Criminal de Loures consistiram na obrigação de se apresentarem periodicamente às autoridades, proibindo-os de contactarem a vítima, mas permitindo-lhes continuar a sua atividade nas redes sociais. Uma decisão judicial que gerou forte indignação em muitos sectores da sociedade, que consideram que as medidas não são proporcionais à gravidade do crime e transmitem uma mensagem de impunidade.