Se há algo que as crises políticas da Madeira e do País nos ensinaram, é que a banalização do mal vira-se contra o(s) Feiticeiro(s). Contrariamente à teoria em que, se levarmos a política para o chiqueiro, os “porcos” vencem (reparem que coloquei aspas, calma!), quando se banalizam os incidentes políticos com uma conexão vagamente ilegal, o alvo final dessa iniciativa (o eleitor) acaba por relativizar. Não ligar. Deixa de ser um aspecto fundamental, regressando à prioridade, como elemento decisivo na formulação do voto, o contexto económico e social. A “carteira”, ou como disse James Carville em 1992: “É a economia, estúpido!”. Até porque, ação gera reação, e o currículo dos partidos, pelo menos da perspectiva do eleitor, é um pouco como aquele carro de 15 anos que vai à inspeção: pode estar impecável por fora, mas se o examinador quiser, arranja sempre um parafuso fora do sítio para o chumbar. Também qualquer partido tem sempre um artista para fazer corar o líder mais moralista e populista, ou uma ação mais subjectiva que possa ser vista, ou enquadrada, senão na ilegalidade, na imoralidade pública e política (seja lá isso o que for). Quando se arrasta o país, durante semanas ou meses, para um caso como a Spinumviva em que, pelo menos daquilo que é conhecido, não existia nada, absolutamente nada que o justificasse, o povo, que apesar de não resistir em chamar todos de “gatunos”, já não liga. Quando temos partidos e comunicação social a continuar a exigir explicações, e quando confrontados sobre que explicações são devidas não as sabem enunciar, quando o líder da oposição anuncia uma comissão de inquérito, e quando convidado a revelar o objeto a ser sindicado pela mesma responde, atrapalhadamente, “isso a comissão política do PS (cof, cof, ele próprio) ainda vai decidir”, então a falta de credibilidade tomba para o lado dos acusadores e não do acusado. Ainda mais quando se descobre que um eurodeputado do PS, curiosamente da Madeira, também criou uma empresa, mas já depois de ter trocado um emprego privado bem remunerado por um salário mais modesto como deputado, e recusa dar explicações sobre os clientes dessa mesma empresa.
A verdade é que os actores políticos acabam por ser reféns de si mesmos. Não fazem um discurso pedagógico que explique ao comum português, que (sobre) vive com ordenados miseráveis que, embora os salários da classe política sejam geralmente superiores ao que estes ganham (nem sempre, se compararmos com o topo de carreira da função pública), são muitas vezes inferiores ao que um profissional diferenciado consegue no privado. E quando consegue explicar que sim, ganha mal na actividade política, mas cai na tentação de tentar cativar o cidadão médio com a rábula do “somos todos desgraçadinhos porque ganhamos mal”, está a omitir que a actividade política proporciona, legitimamente, um conjunto de contactos que abre oportunidades fora da causa pública. Daí que se censure, mal, quando essa rede de contactos e esse estatuto adquirido é usado em proveito próprio. Para dar um exemplo, o escritório de advogados Aguiar-Branco & Associados, promove uma atividade na próxima semana. Uma determinada “inteligentia” atropela-se para ter convite. Porquê? porque é o escritório do circunstancial presidente da AR. É normal, não passa pela cabeça que exista qualquer favor ilegítimo associado. Mas é uma questão de marca.
O eleitor até pode não racionalizar os argumentos pró e contra populismo. Mas intuitivamente discerne o que é imoral ou não, ilegal ou apenas o resultado da complexidade das nossas sociedades. E o resultado são as “surpresas” como a vitória expressiva do PSD Madeira na Regionais, ou a liderança segura da AD nas sondagens das legislativas nacionais.
Irrevogável
Miguel Albuquerque encontrou a estabilidade exigida pelos madeirenses, num acordo alargado de 4 anos e meio com o CDS (cada vez mais reduzido) de José Manuel Rodrigues. E conseguiu que este não ficasse com a apetitosa pasta dos assuntos sociais. Mas cuidado. O meu amigo Zé Manel não é Rui Barreto. É o que achamos em política de “peixe de águas profundas”. Se tivesse de comparar com um político nacional, seria com Paulo Portas. Lembram-se daquela rábula sobre Marcelo das dádivas de Deus e do Diabo? José Manuel Rodrigues é um portas.