Os perigos do método científico (2.ª Parte)

De repente, as luzes da sala acenderam-se, ofuscando-o. A chave rodou na fechadura e o ferrolho troou. A porta abriu-se de rompante, metade para cada lado, e apareceu o indiano, com a camisa aberta até à barriga e um colar de ouro a luzir no pescoço, no qual o postulante Muikinavahia não tinha reparado da primeira vez. O olhar do indiano indicava uma de duas coisas possíveis: ou que ia lutar, ou que ia dançar.

Atrás do indiano vinham dois polícias. Eram baixinhos e magrinhos, mas os bonés altos e com enormes palas luzidias davam-lhes um aspeto imponente e assustador. Apesar do ambiente quente e abafado, o postulante Muikinavahia sentiu um arrepio de frio.

– É este! – Gritou o indiano, apontando para o postulante Muikinavahia.

Os polícias avançaram, pondo-se um de cada lado. Ele estava estático e de boca aberta, como quem assiste ao fim do mundo num filme. Um dos polícias fez aparecer um par de algemas como por magia. O outro apoderou-se da esferográfica e do caderninho. Num instante, o postulante Muikinavahia viu-se algemado e despojado dos seus instrumentos de investigação. Os polícias empurraram-no para fora com violência.

A manhã continuava luminosa.

Ladeado pelos polícias e com o indiano caminhando de peito inchado dois passos à frente, o postulante Muikinavahia desceu a rua principal em direção à Esquadra da Polícia. As pessoas puseram-se a olhar muito espantadas, tentando imaginar que crime teria cometido aquele jovem tão bonito, assim tão bem vestido com uma camisa vermelha com florezinhas azuis e colarinhos pontiagudos. Algumas vinham da missa e reconheceram-no. Mas ninguém fez nada.

Apesar de ser domingo, o Comandante da polícia encontrava-se na Esquadra, porque tinha discutido com a mulher logo de manhã e não quisera ficar mais tempo em casa. Como o indiano era um dos empresários mais importantes do distrito e além disso vereador do Conselho Municipal, decidiu encarregar-se pessoalmente do caso postulante Muikinavahia.

– O que estava você a fazer no cinema do senhor Hassam? – Perguntou o Comandante com o sobrolho horrivelmente carregado.

Apesar da angústia, que resultava de uma mistura de vergonha e desorientação, o postulante Muikinavahia não hesitou:

– Estava a contar as cadeiras.

– E quem te mandou contar as cadeiras? – Perguntou o Comandante, que estava sentado à secretária, tendo atrás de si o senhor Hassam, com as mãos nos quadris e a cara muito irritada. O senhor Hassam estava constantemente a movimentar a cabeça de uma forma que o postulante Muikinavahia achava muito engraçada. Esteve mesmo prestes a rir por causa disso. Mas conteve-se.

– Ninguém. Eu só queria saber quantas pessoas cabem na sala sentadas.

E depois acrescentou:

– Com base no método científico.

O Comandante repetiu baixinho com base no método científico e era como se não acreditasse no que tinha ouvido e então informou o postulante Muikinavahia de que lhe dava um enxerto de porrada a valer se não dissesse a verdade, que o chamboqueava dos pés à cabeça, que o catanava todo inteirinho e se ele não ficasse satisfeito com isso lhe metia uma bala no meio dos olhos ou no meio dos cornos (tirou a pistola do coldre e colocou-a em cima da mesa), pelo que o melhor era dizer o que estava a fazer no cinema do senhor Hassam e dizê-lo já, jázinho, agorinha mesmo e muito depressa.

Embora aturdido, o postulante Muikinavahia insistiu na verdade:

– Estava a contar as cadeiras.

Aí, o Comandante não se conteve. Ergueu-se subitamente, revelando ser ainda mais baixo do que os dois polícias, debruçou-se sobre a secretária e pregou-lhe uma bofetada no lado esquerdo da cara. A bofetada foi tão forte que lhe rasgou o lábio e fez saltar sangue. Instantaneamente, os olhos do postulante Muikinavahia encheram-se de lágrimas. Ao mesmo tempo, o Comandante berrava:

– Levem este estupor para o calabouço.

(Termina na próxima sexta-feira)

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