Penso que o caro leitor se tiver a minha idade ou próxima, irá lembrar-se bem desta música que passava nas rádios lá pelos idos anos oitenta. A letra é acutilante e a Lena D’Água, à data, uma miúda bem-apessoada e afinada, por entre versos e um arranjo musical bem conseguido, dizia algumas verdades. Numa batida tropical e a tocar nas teclas certas bem que poderia estar a falar de alguns dos nossos indígenas dedicados à política, mais concretamente a alguns espécimes que grassam na oposição e que desgraçam a região, ou que pelo menos tentam.
Vem a propósito este desabafo pelo facto de estarmos já bem dentro de um exótico período de pré-campanha onde algumas forças políticas madeirenses praticam um autêntico tiro ao alvo a tudo o que mexe. Quer vote, quer não vote, o coitado do eleitor é sujeito a um chorrilho de lamurias, de promessas e de juras, e lá dizia a nossa Lena: “Prometem muito pão e vinho/ Quando abre a caça eleitoral”. E promessas não faltam, e não é só de pão e de vinho, é também de cana sacarina, de banana e até de uva, um cabaz completo e bem recheado de fruta da época e uma pinga para empurrar, infelizmente, mais negra do que tinta.
Mas esta malta não se fica pelos produtos da terra, há que densificar, há que diabolizar tudo o que de bom e de bem se fez e se faz nesta terra. No discurso fanfarrão, uma imprecisão aqui, uma omissão ali, juntando uns poucos de zeros aos euros e pronto, está servida uma ideia perfeitamente estapafúrdia, numa roupagem de medida inteligente e urgente. A menina da boina basca cantava: “Aproveitam todo o espaço/ Que lhes oferecem na rádio e nos jornais/ E falam com desembaraço/ Como se fossem formados em falar demais”. E para falar, palavras não lhes faltam, e nunca são demais, algumas caras, outras, iriam sair muito caras.
Mas além da promessa fácil e da dissimulação, quando os fins justificam os meios, e os meios são sempre abundantes e os fins frequentemente pouco dignos, lá vem a mentira, a velha da mentira gorda e de perna curta. A mentira mais recente, versa sobre a tarifa da água de rega. Nada melhor do que de botas de água e de vestido de noiva alagar o assunto e afogar o pobre do agricultor madeirense na dúvida e na incerteza, é mal injusto. A técnica é interessante, prevê uma encenada imolação à frente das câmaras, com ar grave e circunspecto, debitando discurso sobre os supostos aumentos pornográficos e pouco púbicos da ARM, a malfeitora que come agricultores ao pequeno-almoço. Isto é o que dizem, mas o que não dizem é que num golpe parlamentar de puro oportunismo político, o orçamento que mandaram para o espaço, um bom orçamento, previa sete milhões de euros para o apoio à exploração do Sistema de Regadio da Madeira. Também não tiveram a hombridade de dizer que só com o orçamento aprovado é que o Governo Regional estaria em condições de materializar a subsidiação a este importante factor de produção. Na voragem mentirosa também não esclareceram que a não aprovação do orçamento obriga que o preço da água de rega seja formado com as verbas previstas no orçamento anterior, os tais duodécimos, logo, sem os valores actualizados de subsidiação no montante de 85% do custo total final para 2025. Pois é, já a nossa cantante dizia e parecia que adivinhava: “P’ra levar a água ao seu moinho/ Têm nas mãos uma lata descomunal”. Ao moinho não sei se levam água, mas lá que regam bem, regam.
Esta farsa incessante, esta manipulação populista dos temas é infame, este abuso do discurso fácil e orelhudo é criminoso e degrada a democracia. Infelizmente a demagogia militante institucionalizou-se e é hoje uma arma de arremesso que só uma população bem informada e clarividente consegue desmascarar e desmontar. No refrão, a Lena D’Água repetia: “Demagogia feita à maneira/ É como queijo numa ratoeira”, não podemos cair nesta armadilha, o madeirense não é nenhum murganho incauto e faminto, nem merece ser tratado como tal. A bem da nossa terra, vamos fazer isto à maneira e vamos deixar que os demagogos se enfartem com o seu próprio queijo, lá apetite não lhes falta.